terça-feira, outubro 31, 2006
Solitariedades - Ó Zita
Preferiste salientar os cuidados que se deverão ter com essas malucas que, se o "Sim" vencer, passarão a fazer da IVG a sua prática desportiva predilecta, porque livre e a seu pedido.
Confesso que tenho alguma dificuldade em entender o teu percurso político e desculpa-me pelo tratamento na segunda pessoa do singular. É que eu ainda não mudei assim tanto. Continuo a prezar o "camarada" em vez do "companheiro", estás a ver ?
E não. Não sou eleitor do partido a que pertenceste durante anos. Bom... No teu caso, deixa-me acrescentar o "nem nunca fui"...
Calma Zita! Não tenho nada a ver com a tua evolução. Pelo contrário, como ainda me faltam uns aninhos para chegar à idade que tinhas quando mudaste de lado político, faço-te justiça ao reconhecer que é melhor ficar caladinho... Lá para 2012, quem me diz que não serei adjunto de um qualquer gajo da direita mais bacoca cá do burgo.
Mas ó Zita, não te parece que continua a não haver uma Educação Sexual decente ? Que continua a não haver um método contraceptivo 100% eficaz ? Que em vez de criticares os tipos da clínica espanhola, faria mais sentido perceber a realidade actual das "abortadeiras amadoras" ?
Em relação a esta última referência, só pode ter sido um regresso ao passado. Quando ouviste o interesse dos espanhóis se instalarem em Lisboa, recordaste o anti-capitalismo-nacionalista do PC, não foi ?
Pois é... Mas enquanto tu mudaste, o direito das Mulheres ficou na mesma. E, já agora, vai voltar a ser colocado ao dispôr de cada um dos eleitores, como se essa decisão lhes dissesse respeito.
Mas deixa lá Zita, fica bem.
segunda-feira, outubro 30, 2006
Guernica
A cultura, mais concretamente a arte, é sempre algo não totalmente unívoco. Sempre houve, e sempre haverá discussão sobre estilos, formas, materiais e fundamentalmente sobre o papel da arte, num passado mais conservador do que vivemos actualmente, no presente e no futuro que se espera melhor. Não sou grande apreciador de arte. Sou antes um apaixonado pelas formas e pela disposição dos objectos no espaço, e pelos significados encerrados em cada peça, se ainda por cima forem significados políticos. Sou o público ideal da arte enquanto murro no estômago. Muito embora seja como a generalidade das pessoas. Simplesmente gosto ou não gosto. É uma coisa de pele. E talvez por estes pontos aqui por cima fiquei muitíssimo impressionado com "a" ou "o" Guernica de Picasso. É impressionante pela dimensão, que não poderia ser outra, e encerra uma carga simbólica de tal forma que é quase impossível ser indiferente a quem quer que seja. O monte de gente nas imediações do quadro denuncia a sua presença, e é natural. A forma violenta como parece ter sido feito, quase que salta cá para fora, e é impensável o sofrimento com que terá sido feito, tendo presente o genocídio que se propõe retratar. Simplesmente aterrador.
O quadro está no Museo Reina Sofia, e é acompanhado de uma excelente exposição fotográfica da Guerra Civil espanhola. Uma visita essencial a quem passa por Madrid.
Coitado do Picasso jamais deve ter pensado que ia parar a um museu com nome de rainha e que os seus quadros se tinham de expor a este tipo de disparate.
Mortinho
sexta-feira, outubro 27, 2006
Inventar Agustina...
Concorda com o direito de voto para as mulheres?
Falar do direito de voto para as mulheres é distorcer o seu sentido. Ao longo da vida conheci mulheres brilhantes a nível intelectual que não eram capazes de encarar o voto. Uma coisa são as senhoras, outra são as rameiras.
Qual a diferença?
As rameiras querem todas essas prerrogativas, como o voto. As senhoras não.
Em causa estão direitos...
...Todos devem ter os mesmos direitos, mas para isso não é preciso falar de voto.
quinta-feira, outubro 26, 2006
olhares do campo - uma música para os nossos dias
"Lá não tem brisa
Não tem verde-azuis
Não tem frescura nem atrevimento
Lá não figura no mapa
No avesso da montanha, é labirinto
É contra-senha, é cara a tapa
Fala, Penha
Fala, Irajá
Fala, Olaria
Fala, Acari, Vigário Geral
Fala, Piedade
Casas sem cor
Ruas de pó, cidade
Que não se pinta
Que é sem vaidade
Vai, faz ouvir os acordes do choro-canção
Traz as cabrochas e a roda de samba
Dança teu funk, o rock, forró, pagode, reggae
Teu hip-hop
Fala na língua do rap
Desbanca a outra
A tal que abusa
De ser tão maravilhosa
Lá não tem moças douradas
Expostas, andam nus
Pelas quebradas teus exus
Não tem turistas
Não sai foto nas revistas
Lá tem Jesus
E está de costas
Fala, Maré
Fala, Madureira
Fala, Pavuna
Fala, Inhaúma
Cordovil, Pilares
Espalha a tua voz
Nos arredores
Carrega a tua cruz
E os teus tambores
Vai, faz ouvir os acordes do choro-canção
Traz as cabrochas e a roda de samba
Dança teu funk, o rock, forró, pagode
Teu hip-hop
Fala na língua do rap
Fala no pé
Dá uma idéia
Naquela que te sombreia
Lá não tem claro-escuro
A luz é dura
A chapa é quente
Que futuro tem
Aquela gente toda
Perdido em ti
Eu ando em roda
É pau, é pedra
É fim de linha
É lenha, é fogo, é foda
Fala, Penha
Fala, Irajá
Fala, Encantado, Bangu
Fala, Realengo...
Fala, Maré
Fala, Madureira
Fala, Meriti, Nova Iguaçu
Fala, Paciência..."
Chico Buarque - "Subúrbio", in "Carioca"
quarta-feira, outubro 25, 2006
A decisão mais inteligente do ano
Finalmente, alguém nesta novela mexico-venezuela, sem personagens chamadas Abigail, que é o futebol português, resolve fazer a única coisa certa. Estar calado. A comissão de arbitragem da liga resolveu não comentar as nomeações, não avaliar publicamente os árbitros à priori e à posteriori e por isso não dizer nada sobre as opiniões que os diversos camafeus que dirigem clubes de futebol tenham a dizer sobre as arbitragens aos jogos em que as suas equipas participam.
Razão tem o secretário de estado do desporto – "nunca uma afirmação, seja ela qual for, marcou golos."
terça-feira, outubro 24, 2006
Solitariedades - Eles andam aí...
"Já houve casos de violência no passado e os skinheads são os primeiros a reconhecer isso, mas essa violência se calhar é um copo de água ao pé do imenso mar de violência suburbana, nomeadamente africana"
"Não podemos ter como referência o Estado Novo, ou Salazar ou Mussolini ou Hitler, porque os jovens de hoje (...) não têm muitas referências históricas. A muitos nada lhes (diz) o 25 de Abril ou o Portugal Ultramarino"
Pois é...
(Já que disse que não diria nada, nada direi... Mas que custa, lá isso custa. Bolas...)
segunda-feira, outubro 23, 2006
O maior de todos
O Euromilhões continua sem sair, os outros foram arrancados do Rivoli (tal como se esperava), a electricidade afinal não vai subir tanto como pretendia o Castro Guerra, a queda da ponte de entre-os-rios foi um grande azar e o Salazar até foi um grande herói. Ah pois foi. Aliás até foi o melhor de todos os portugueses.
A minha geração de egoístas (como eu próprio) só têm a agradecer a Salazar. Afinal, porque ele existiu é que nós fazemos aquilo que entendemos das nossas vidas sem dar cavaco a ninguém, não tivemos de ir à Guerra, não precisamos de saber quais as estações da linha do Tua (porque ela até já deve ter fechado) e os ferroviários de Benguela são um clube de futebol estranho e toda a gente da minha geração sabe perfeitamente que Angola fica ali para os lados da Amadora.
Tudo facilidades. E a quem é que temos de agradecer???? A quem? Senão a Salazar? Esse grande visionário, esse grande estadista que sempre nos protegeu. Até pode ter sido um problema para a geração dos meus pais, mas naturalmente isso agora não interessa para nada. O homem percebeu claramente que o maior feito do Portugal do Século XX, seria o aprofundar da nossa ignorância, da nossa miséria e provincianismo, um conservadorismo cinzento, um nacionalismo bacoco assente num milagre improvável, um império impossível de manter, o isolamento, a corrupção, a perseguição, o autoritarismo e a morte, para que um dia explodisse numa espiral de energia reconstrutora e renovadora, que levasse longe o nome de Portugal. O sujeito foi mesmo o único português durante todo o século XX que entendeu a verdadeira dinâmica do povo português. O único que percebeu que só arrastando-nos na lama conseguiríamos ter o alento de fazermos algo por nós próprios. E que só com uma grande festa (que foi o 25 de Abril, talvez a maior festa da Europa…) é que conseguimos alimentar o nosso ego para continuar por mais algum tempo, e tudo foi previsto por esse grande português.
O meu sincero agradecimento a Salazar por nos ter deixado na merda durante 48 anos, pois isso é que possibilitou que hoje sejamos a inequívoca potência europeia que somos.
Um grande bem-haja para Santa Comba Dão.
quinta-feira, outubro 19, 2006
olhares do campo - Para onde vais peregrino?
Ao sair de casa para o trabalho, ainda alta madrugada, não lhe parecia estranho, em certos dias, encontrar algumas figuras em exercícios de treino e aquecimento. Não se tratava de atletas madrugadores, mas de fiéis devotos, no início de mais uma etapa do seu caminhar peregrino.
Em vez de equipamentos desportivos, as mochilas cheias nas costas, com colchões de campismo por cima, cantis pendurados no peito, muitas vezes uns (nada recomendáveis) chinelos nos pés e os inevitáveis cajados. Nos últimos tempos o célebre colete das estradas também se tornara comum.
Mas naquele dia aguardava-o um outro encontro, que haveria de guardar na memória.
Ao fundo da longa rua a direito que percorria todas as manhãs avistou uma luz ténue. Percebeu ser mais um peregrino, que caminhava na sua direcção. Na mão uma pequena vela, que supôs acesa em permanência.
Conforme se aproximavam podia entrever a figura daquele singular peregrino. Um velho curvado, com longas barbas e cabelos brancos, sem nenhum dos habituais “acessórios” de peregrino, apenas com a pequena vela acesa. Talvez um ermita saído do seu refúgio somente para aquela peregrinação. Passos pequenos e frágeis não faziam abater a determinação que se pressentia no seu caminhar.
Cruzaram-se a meio da rua. Trocaram olhares e o velho deu os “bons dias”. Retorquiu da mesma forma e seguiram os seus caminhos.
No resto do seu percurso não conseguiu que lhe saísse da cabeça a imagem do velho homem. Não pensou censurar a devoção beata ou o irracionalismo da fé. Ocorreu-lhe apenas que gostaria de ter desejado uma boa jornada àquele estranho velho com quem se cruzara.
Não pretendeu sequer imaginar qualquer simbolismo implícito nos sentidos diferentes do caminhar de ambos. O velho peregrino dirigia-se lentamente para o seu lugar de culto, ele corria para o bulício da cidade grande. Cada um no seu caminho. Qual deles no caminho certo?
quarta-feira, outubro 18, 2006
Solitariedades - Castro Guerra
terça-feira, outubro 17, 2006
Mission Accomplished
É uma carrinha muito oferecida e anda sempre feita maluca por todo o lado. Passámos bons momentos juntos mas no momento em que as revisões e reparações me começaram a custar um subsidio de férias, o seu destino começou a estar traçado. Para o ano deverá entregar a sua alma ao criador.
segunda-feira, outubro 16, 2006
IVG
Embora o instrumento “referendo” careça de uma concretização clara quanto à sua utilidade, e à cadência da sua utilização, entendo que aquilo que os portugueses escolheram em 1998 deve ser mantido ou alterado em 2007 recorrendo à utilização de instrumento de igual valor.
Já anteriormente defendi por aqui a necessidade de legislação urgente sobre a Interrupção voluntária da gravidez (IVG) relativamente à qual estou de acordo. No entanto, há muito mais a fazer neste campo do que a simples descriminalização da IVG, e é aí que continuo a não ver qualquer avanço.
É importante situarmos do que estamos a falar. Estamos a falar de um possibilidade de uma mulher fazer um IVG até às 10 semanas sem que para tal tenha de recorrer a médicos de vão de escadas, clínicas em Badajoz ou parteiras sem escrúpulos. Está em causa a saúde destas mulheres e está em causa a situação legal em que se colocam quando recorrem à IVG.
Mas ainda que o referendo venha a permitir (não tenho certezas…) a IVG até às 10 semanas, continua a não existir um plano efectivo de planeamento familiar e acompanhamento das mulheres grávidas que em muitos casos possa deixar claro que existem alternativas que as mulheres possam escolher. Além disso, e talvez seja um dos aspectos mais importantes, não é certo, nem existe até agora qualquer informação de como o Serviço Nacional de Saúde se vai adoptar a esta nova realidade e se consegue, ou não, corresponder aos pedidos de IVG em tempo útil (dentro das 10 semanas).
Pelo menos começam a aparecer aspectos positivos no caminho até ao referendo. Os principais partidos parecem entender-se sobre a necessidade de referendar a questão perante a total insustentabilidade do que acontece todos os dias.
Outro aspecto importante e do meu ponto de vista fundamental à aprovação da IVG é a coerência da liderança do PS em relação a este assunto. Depois da ambiguidade de Guterres (que se parece ter deslocado para o PSD e para o CDS-PP), a direcção do PS tem uma estratégia definida sobre esta matérias e sem ambiguidades defende a IVG.
sexta-feira, outubro 13, 2006
2 º Aniversário - (parte 3) Os agradecimentos
16/10/06 :Para os mais distraídos que chegaram mais atrasados e acabaram por não apagar as velas, o meu obrigado :)
quinta-feira, outubro 12, 2006
A legalidade
Actualmente, tem-se exagerado enormemente a dimensão da ameaça da Al-Qaeda. Ouvindo alguns, até parece que esta organização terrorista teria capacidade para conquistar a Europa. Entretanto, o clima de paranóia colectiva ajudou a justificar a guerra contra o Iraque, alimenta a xenofobia, e desculpa o autêntico retrocesso civilizacional constituído por prisões sem lei como a de Guantánamo, ou a «exportação» da tortura para as ditaduras árabes. via Esquerda Republicana
Aqui (e no dolo) falava-se há uns dias sobre o estado de necessidade que teria, ou não, motivado a intervenção dos agentes da GNR em dois casos no norte do país (discussão que infelizmente não tive tempo para acompanhar devidamente).
olhares do campo - carta a um amigo
Amigo:
Escrevo-te da janela de onde avisto o longe, espraiado nos campos em que jaz agora o restolho. De um lugar onde, diz-se, o tempo se suspende, os ritmos se transformam e o vagar irrompe. Um lugar diferente, o campo. Mas será mesmo assim?
Às linhas irregulares dos blocos de betão, que vislumbras da tua janela, opõe-se aqui a linha aberta e infinita do horizonte. Por momentos pergunto-me se por isso se pode abrir um abismo entre os nossos modos de olhar.
Mas quantas vezes olhámos de forma diferente as coisas e quantas as olhámos como que com os mesmos olhos? De umas e de outras vezes partilhámos os nossos olhares e apenas isso basta, amigo.
Pela escrita vou de novo ao teu encontro, procuro que cruzemos os nossos olhares uma vez mais. Recomeço um caminho nunca terminado. Do campo à cidade?
Do campo à cidade vão todas as diferenças e semelhanças que quisermos encontrar, sem sabermos se nos lugares, se em nós mesmos...
Anoitece já sobre a janela de onde avisto o campo. No horizonte escuro apenas as chamas breves das queimadas em que arde o restolho. No campo ou na cidade, amigo, talvez seja sempre assim. Os sinais do fim talvez mais não sejam que prenúncio de um novo recomeço. Depois da noite haverá de amanhecer. Amanhã é um novo dia. E nós voltaremos a encontrar-nos por aí.
Um abraço, amigo!




