sábado, outubro 07, 2006

Os clandestinos

O tema da imigração está desde há muito na agenda. Muito mais do que gostaríamos de admitir. Não fosse a memória curta a impedir-nos de raciocinar e talvez percebêssemos que o mundo inteiro é resultado das mais espantosas migrações. Somos todos, quase sem excepção, resultado de uma migração de alguém num qualquer passado longínquo resolveu sair do sítio onde vivia para se instalar noutro lado. Aqui em Portugal somos resultado dos desejos de um estrangeiro que por aqui se fixou, ainda temos laços de sangue com os que de nós se resolveram fixar noutras paragens longínquas desde o século XIX e somos netos e filhos de uma geração que também resolveu partir à procura de uma vida melhor. Hoje em dia somos o sítio “melhor” onde muita gente optou por se fixar, o que nos obriga a pensar sobre o fenómeno das migrações.
Temos milhentos pontos de vista sobre os imigrantes, quase sempre extremados por um desconhecimento da realidade global que afecta a nossa sociedade e a sociedade dos imigrantes. Sim, isso mesmo. A nossa e a deles. Vivemos em sociedades separadas e é nos pontos de contacto que surgem os conflitos. Não sabemos ou não queremos saber quem são, nem onde estão. Onde vivem, nem o que fazem. É muito mais confortável afastá-los da vista que tentar perceber esta nova realidade. Não frequentamos os mesmos transportes, pelo menos às mesmas horas. Não temos os mesmos empregos. Não frequentamos os meus restaurantes nem os mesmos centros comerciais. Não compramos nas mesmas lojas, à excepção das lojas dos chineses, não vestimos as mesmas roupas, não entendemos o que dizem, não gostamos do que comem, nem entendemos as religiões que professam. Estas são as razões que nos levam a desconfiar dos imigrantes num país mal habituado a comportamentos alternativos sejam eles de portugueses ou de estrangeiros.
Infelizmente a maioria das opiniões sobre este assunto resume-se a duas. Ou as portas se abrem de par em par para toda a gente entrar, ou então se mete toda esta gente num barco com pão e água e volta tudo lá para África, para o Kosovo ou para o Brasil. 500 anos de evangelização missionária não poderiam ter resultado noutros pensamentos mais católicos.
Ora importa fazer um reconhecimento fundamental sobre toda esta gente. A esmagadora maioria pretende trabalhar. Trabalhar para proporcionar às suas familias uma vida melhor aqui ou nos seus países de origem. Só sobre o reconhecimento do direito ao trabalho com direitos e deveres é possível estruturar uma política de imigração que permita tornar comuns os pontos de contacto de que falava atrás e devolver normalidade à relação dos portugueses com os estrangeiros, não alimentando a exclusão e guettização.
Não é preciso muito para perceber que o aproveitamento ilegítimo das condições precárias de trabalho dos imigrantes perturba o normal funcionamento do mercado de trabalho, fazendo em alguns sectores decrescer o preço/valor do trabalho e facilitando o enchimento de alguns... Mas dizer-se que estes roubam empregos de portugueses não passa de uma vulgar falácia sem sentido que na maior parte das vezes se refere a uma série de figuras que de facto podem não pensar em trabalhar, mas que na realidade até nem são imigrantes... O que acontece é que ao contrário de outros países europeus, não estávamos preparados para esta realidade. Não tínhamos ainda a mão de obra qualificada que criasse compartimentos estanques entre as actividades dos portugueses e as actividades a que se dedicariam os imigrantes. Não tínhamos e continuamos a não ter. O que de certa forma até é bom. Mas daí a necessidade da regularização do trabalho.
Noutro aspecto, o fenómeno da violência parece estar fortemente ligado à imigração. Pelo menos da forma como a coisa nos é apresentada pela comunicação social. Mas concretamente estamos a falar do quê? Estamos a falar de uma criminalidade de rua, por vezes bastante violenta, de pequenos furtos a pessoas excepcionalmente fragilizadas como mulheres, idosos e jovens, ou outros quando actuando em grupo. Aliás o grupo, ou o gang, é um dos maiores pesadelos que temos vindo a alimentar. A actividade destes grupos que atacam esporadicamente pessoas com grande violência, mas que geralmente se dedicam ao vandalismo impune, são um problema que veio com os imigrantes? Não, foi agravado com a presença dos imigrantes? Talvez. Ele é resultado de um problema social que sucessivas politicas, de sucessivos governos, tardaram e tardam em abordar, numa espécie de deixa andar que se tornou um caso de polícia sobre o qual agora também se demitem de resolver. É um problema de segurança pública e um Estado não se pode dar ao luxo de ter uma policia que não quer entrar em determinadas zonas, apesar de espantosamente o conseguir fazer sempre que vão as câmaras atrás. Outra vertente da violência associada à imigração está na prostituição e em actividades que lhe estão associadas como o tráfico de droga. Ora, é verdade que grande parte do Boom deste sector se deve à imigração ilegal. Até dou de barato que haja imigrantes que prefiram manter a ilegalidade neste sector, mas quero crer que a generalidade dos clientes deste mercado não são outros imigrantes. Logo se os imigrantes estão cá mal, as brasileiras boazonas estão cá bem? Parece estranho, tão mais estranho porque nos permitimos a olhar para o lado perante casos de escravidão sexual e tráfico de mulheres porque encaramos que no fundo as brasileiras, romenas ou croatas é que são umas grandes vacas. Logo, não faz mal nenhum em ir às meninas porque é quase solidariedade social. São as contradições em que gostamos de viver.
Mas isto já vai longo. Ficam por referir os problemas do acesso à habitação, a reconciliação familliar, a naturalização e outros. Talvez num outro post. No fundo o que eu pretendo com este gigantesco post é esclarecer que é redutor ver este assunto com fundamentalismos seja qual for a sua origem. Não podemos receber toda a gente, mas também não conseguiriamos fazer tudo o que se tem feito neste país, sem muitos deles. É o bom senso que geralmente nos faz falta. O que me parece essencial é que se criem regras moralizadoras, pois estamos a falar de pessoas e não de mercadorias. Pessoas que podem e devem ter o seu lugar e contribuir tal como nós para o sucesso deste país. Afinal o sucesso desta chafarica é também o sucesso da escolha que fizeram para a sua vida. O que me parece essencial, é o Estado fazer o papel que lhe compete para que todos possamos saber qual a real dimensão do que no dia a dia insistimos em discutir. É fundamental que a esmagadora maioria das pessoas que simplesmente querem organizar as suas vidas não estejam à mercê de gente sem escrúpulos, e que possam respeitar e ser respeitados por todos. É essencial que percebamos que estas pessoas têm rostos e vidas próprias que se calhar até nem são assim tão diferentes das nossas e por isso o destaque a estes mexicanos, nestas fotos de Dulce Pínzon, que os retrata como heróis da cultura norte-americana e cultura popular mexicana. Heróis num dia a dia difícil, na clandestinidade que os países em que trabalham à décadas os forçaram a manter.

3 comentários:

miguelinho disse...

Amigo estou em grande parte de acordo com as ideias e valores que apresentas neste post, contudo ha "aqui e ali" alguns pontos com os quais não concordo

"dizer-se que estes roubam empregos de portugueses não passa de uma vulgar falácia sem sentido"

Não concordo, pode ser sem duvida um frase gasta mas infelizmente corresponde á verdade e dou-te um exemplo, na construção civil facilmente se ouve que os portugueses não querem trabalhar nas obras, nada mais falso, o que os portugueses não querem é trabalhar na construção civil nas mesmas condições miseráveis em que os emigrantes trabalham, não fosse assim ou não seriam os trabalhadores da construção civil portugueses obrigados eles próprios a emigrar pois ca não têm emprego, precisamente devido ao excesso de mão de obra emigrante disponível e ao desequilíbrio do factor oferta/procura que essa mesma mão de obra a mais provoca.
Também te poderia dar o exemplo da hotelaria, onde muito português vê como única solução a emigração mais uma vez pelo desequilíbrio que ha também neste sector devido ao excesso de mão de obra emigrante.

" Estamos a falar de uma criminalidade de rua, por vezes bastante violenta, de pequenos furtos a pessoas excepcionalmente fragilizadas como mulheres, idosos e jovens, ou outros quando actuando em grupo. Aliás o grupo, ou o gang, é um dos maiores pesadelos que temos vindo a alimentar. A actividade destes grupos que atacam esporadicamente pessoas com grande violência, mas que geralmente se dedicam ao vandalismo impune, são um problema que veio com os imigrantes? Não, foi agravado com a presença dos imigrantes? Talvez."

Talvez??
Este problema, foi em muito agravado com o "escancaramento de portas" nas nossas fronteiras.
Aqueles que procuram o nosso pais para usufruírem de uma vida melhor, o que é humanamente compreensível, e que acredito que venham para Portugal com o intuito de terem uma vida honesta, em termos de mercado de trabalho na sua grande maioria são "mão de obra não especializada" e é lógico que não ha trabalho para todos e também será lógico que esta gente tem de continuar a viver, tem de continuar a comer.
Já ha uns anos quando as obras da expo 98 estavam finalmente a ficar prontas, as autoridades policiais previam um aumento da actividade criminosa na zona da grande Lisboa, precisamente devido fim das obras da expo e a "libertação" de mão de obra (na sua grande maioria emigrante) que lhe era inerente.
Infelizmente esta previsão policial veio a verificar-se.
Não vejo este problema unicamente como um problema de segurança publica, é um problema de segurança publica sim mas tem de ser encarado também como um problema de excesso de emigração o qual é necessário encarar de frente sem qualquer tipo de constrangimentos.

"Afinal o sucesso desta chafarica é também o sucesso da escolha que fizeram para a sua vida."

Sem duvida que muitas das coisas positivas que Portugal tem feito nas ultimas décadas (nomeadamente a nível de infra-estruturas) seriam impossíveis de concretizar sem a mão de obra estrangeira, o problema é que a "escolha" que te referes é uma escolha unilateral, é uma escolha unicamente feita por eles e que na qual o estado português não tem participação, não ha qualquer tipo de consulta ao mercado de trabalho para saber em que áreas efectivamente necessitamos de "capital humano" e por consequência também não ha qualquer tipo de enquadramento dessa mão de obra (especializada ou não) .
A grande maioria dos emigrantes que temos vêm por sua iniciativa sem saberem ao certo o que vêm fazer, o maior exemplo são as muitas prostitutas brasileiras existentes por esse pais fora que em muitos casos não vieram para ca com a ideia de trabalharem no "mercado do sexo" mas a isso se viram forcadas, muitas vezes para simplesmente poderem comer e ter um tecto.

Nuno Guronsan disse...

Assino por baixo deste longo post. Concordo com todas as ideias que aqui deixas, sem qualquer tipo de reservas.

o anónimo do costume disse...

Um gajo regressa de férias, tem umas coisas para pôr em ordem (também não muitas...) e logo se depara com tamanhos textos e comentários, "xiça"... mas a "onda" é a de sempre, não?! ;-D (e por aqui me fico, que não há tempo - nem espaço!- para estar com mais achegas)