terça-feira, dezembro 19, 2006

Solitariedades - Dois homens, uma diferença

Dois homens. Nunca souberam que as suas biografias tinham vários pontos em comum. Aliás, nem sequer se conheceram.

Nasceram ambos no Verão de 1978 em pequenos lugarejos rurais. Os pais, adeptos da Argentina campeã do Mundo nesse Verão, baptizaram-nos em homenagem a Mário Kempes. Casaram relativamente cedo e foram Pais quase ao mesmo tempo. Ao primeiro filho seguiu-se o segundo. À medida que a família aumentava, o mesmo acontecia às dificuldades económicas que enfrentavam nos seus países.

A opção pela emigração começou a ser ponderada nas duas famílias. As vantagens materiais eram indiscutíveis. Ainda assim, ambos hesitaram imenso. Nunca haviam saído dos seus países e raras foram as viagens até às respectivas capitais. Mas o pior era a antecipação das saudades que sentiriam dos amigos e familiares, das mulheres e filhos em particular.

Pesados prós e contras, tomaram a decisão de arriscar. Destino escolhido - Paris.

Os pontos em comum terminam aqui. Mário Silva pegou num montante suficiente para pagar o Sudexpress e foi até ao Porto. Chegou a Paris e, após alguns dias de procura de trabalho e de análise das opções disponíveis, começou a trabalhar numa loja de fast-food da capital gaulesa. Nasceu em Trás-os-Montes. É português.

O outro Mário nem sequer chegou a Paris. Chamava-se Mário Yameogo e nascera a duas horas de carro de Bobo-Dioulasso, no Burkina Faso. O objectivo Paris passava por pedir dinheiro emprestado a vizinhos, familiares e amigos. Só assim pôde pagar aos vários intermediários que lucram com a emigração ilegal para a Europa. Mas a viagem deste Mário terminaria no Sul da Península Ibérica. O seu corpo foi encontrado junto a Gibraltar há uns dias. Já sem vida...

Esta história é fictícia. As verdadeiras acontecem todos os dias. Até quando ?

2 comentários:

Nuno Guronsan disse...

Oportuníssimo, meu caro. Impõe-se que aqueles que têm poder em ambos os continentes consigam encontrar uma solução para estas desumanidades que vão ocorrendo dia sim dia não. Para que não haja mais Mários a perderem desnecessariamente a sua vida, quando apenas querem dar o melhor às vidas que de si dependem.

O meu aplauso pelo texto e um abraço de Natal, para ti e para os outros "suburbanos".

o anónimo do costume disse...

A história não é fictícia, são-no apenas as personagens e os acontecimentos narrados. O fio da história é o de sempre, que vemos todos os dias à porta da nossa sofisticada fortaleza... belíssimo apontamento, camarada!