segunda-feira, janeiro 08, 2007

Não, obrigado

O Presidente vai à Índia e agitam-se já os habituais penduras para estas coisas das viagens. Empresários quanto baste, ajudam sempre a encher o avião e ficam bem nas recepções, dão sempre aquele ar de País desenvolvido, cheio de yuppies, com discursos muito elaborados.
Desta vez a viagem tem pormenores interessantes ou então a contenção de despesas começa a atingir níveis de ridículo. O Presidente mandou um questionário para alguns empresários, para estes responderem quais as suas expectativas sobre a União indiana. De acordo com as respostas, avaliadas pelo Presidente (???) terão sido escolhidos os empresários que vão à Índia. Além disso, Belém optou por não pagar nada da viagem e cada um vai desembolsar a sua própria estadia, só pelo prazer da companhia do Presidente, ou porque calhava mal dizer que não... A continuarem assim, dentro em breve basta um Cessna para as viagens oficiais…
Mas não é sobre isso que pretendo falar. A Índia como todos sabem tem demonstrado uma grande capacidade de enfrentar o desafio da globalização com uma aposta forte na formação para as novas tecnologias. Possuem em Bangalore um pólo tecnológico ao melhor nível do Silicon Valley, onde também estão representadas as maiores e melhores multinacionais. Têm uma taxa de crescimento double digit e por isso são exemplo para muitos economistas.
A comunicação social, reflexo da falta de formação deste país, muitas vezes vai atrás dos press-releases que são lançados e torna-se reflexo dos interesses dos políticos e das corporações. Esta semana as várias televisões não questionaram nem uma palavra do discurso oficial sobre a visita do Presidente à índia. Falaram sobre as enormes potencialidades do mercado indiano e de como a Índia é um exemplo de desenvolvimento… Mas achamos todos (especialmente os economistas) que este é o exemplo a seguir? Que o desenvolvimento económico indiano está mesmo a servir os interesses da maioria dos seus habitantes?
Ora aí é que está a questão fundamental. A índia não é exemplo de desenvolvimento para ninguém. É um país com enormes desigualdades sociais, com uma estrutura social quem em muitas ocasiões não respeita as liberdades individuais, que não respeita as mulheres e a sua liberdade. Uma sociedade em que a maioria dos seus elementos vive abaixo do limiar da pobreza em condições sub-humanas, onde as doenças e a fome continuam a ganhar terreno. Aos indianos não estão garantidos direitos básicos como a habitação ou a água potável.
O recente "boom" económico tem servido para pouco, e o investimento em infra-estruturas é ainda escasso, não tendo em grande medida ajudado os milhões de indianos a sair da pobreza até porque as grandes corporações multinacionais vivem à conta da mão-de-obra barata.
Acho lindamente que se procurem oportunidades de negócio para os empresários portugueses na Índia. Mas permitam-me não concordar com as comparações sobre as expectativas económicas da união indiana. Este é um tipo de desenvolvimento que não me interessa e que calculo não pode interessar à nossa classe política. Este tipo de desenvolvimento... não, obrigado.

4 comentários:

roteia disse...

Tem razão, José Raposo. O caso de "sucesso" da economia indiana mostra até que ponto o economicismo reinante se tornou o paradigma de uma ideologia afastada da polis. Bons resultados económicos podem afinal significar maus resultados políticos e sociais.

Anónimo disse...

E como é que ainda pode haver algo como o sistema de castas e a descriminação prestada aos "intocáveis" no século XXI, é algo que me faz realmente muita confusão... Provavelmente isso justifica-se com a fama de enorme help-desk que a India tem junto do resto do mundo...

paulo damásio disse...

Noto um certo saudosismo (na 1ª parte do post) em relação às grandes comitivas soaristas, certo? ;)

Em relação ao modelo indiano, apenas serve para realçar a eventual ameaça que a Índia perfigura ao modelo social europeu por contraponto à China que não perfigura ameaça nenhuma.
Passo a explicar..a China limita-se mesmo a baixos salários (de escravatura mesmo) e a cópias do que as multinacionais fazem ou lhes mandam fazer. E os chineses não farão melhor se mantiverem esta política.

Os indianos são diferentes (não é só a cor de pele), têm muito mais altas qualificações....têm capacidade de inovação, know-how....o que lhes permite a prazo CRESCER efectivamente. Obviamente são um país gigantesco...que já ultrapassou (ou vai ultrapassar a China em número de habitantes) e com problemas de miséria gritantes..e que não se eliminam em 4 ou 5 décadas que é o tempo da sua democracia!

José Raposo disse...

E qual é o modelo social indiano?